PALESTRAS - CURSOS - TREINAMENTOS - WORKSHOPS

PALESTRAS - CURSOS - TREINAMENTOS - WORKSHOPS
PSICANÁLISE CLÍNICA - PALESTRAS - CURSOS - TREINAMENTOS COMPORTAMENTAIS - WORKSHOPS

sábado, 18 de junho de 2011

A construção do conhecimento:como aconteçe o processo da aprendizagem

A CONSTRUÇÃO DO CONHECIMENTO
COMO ACONTEÇE O PROCESSO DA APRENDIZAGEM

Gilson Tavares – Psicanalista e educador
 (gilsontavares_psi@yahoo.com.br)

A primeira molécula só sobrevive mediante a aprendizagem, adaptação e comunicação. Isso se aplica a cada célula, cada órgão, cada ser humano, cada comunidade que produz cultura.
 Luiz Prigenzi (Médico, educador e pesquisador na área das ciências neurocognitivas)

RESUMO
O ser humano nasce com um estoque básico de saber, necessário à sua sobrevivência, e as suas estruturas neurobiológicas e psíquicas precisam desenvolverem-se, para permitir que seja acumulado conhecimentos que irão proporcionar ao indivíduo, habilidades e atitudes necessária à sua interação com os seus semelhantes e com o ambiente onde vive.
Para que aconteça de forma mais efetiva a apreensão do conhecimento, é necessário, além da maturação de estruturas neurobiológicas e psíquicas, condições psicológicas e emocionais equilibradas,  para permitir que o indivíduo interaja de forma eficiente no processo da aprendizagem.
O professor que seja conhecedor de como acontece e como funciona as várias instâncias da apreensão do conhecimento, pode desenvolver atitudes e técnicas que possam favorecer à um melhor aproveitamento  do momentos de aprendizagem.
Qual a importância dos processos neurobiológicos, psíquicos, psicológicos, emocionais e relacionais para o processo da aprendizagem e para a construção do conhecimento ?
A resposta a esse questionamento é o que deve ser encontrado nesse trabalho, o processo da aprendizagem com uma visão psicológica, neurobiológica, evolucionista e pedagógica, para que, compreendendo como o homem percebe e apreende os estímulos e as experiências, e de como se utiliza desses recursos para modificar seu comportamento e o meio onde vive, possamos também aprender a como fazer o melhor uso desses processos.
Processos de aprendizagem modelam o cérebro dotado de sinapses em excesso. Eles dissolvem conexões pouco utilizadas ou fortalecem as ativas e de uso freqüente. A multiplicação dos estímulos exteriores determina qual será a complexidade das ligações entre as células nervosas e como elas se comunicarão entre si. Quanto maior a quantidade de dados semelhantes preexistentes,tanto mais fácil é a fixação do novo. Os processamentos cerebrais dependem de como esses neurônios podem ser associados. Isto é, dependem da eficácia da transmissão sináptica entre eles.
Graças as novas conexões, toda experiência é integrada às redes que já existem e que ela ativa. O novo evoca o antigo e, por associação e consolidação, torna-se parte integrante dele.
A memória envolve não só percepções, ações e objetivos, mas também sentimentos, imaginação e trajetória do pensamento. A aprendizagem requer crescimento e formação de novas conexões sinápticas, crescimento de espículas dendríticas, mudança de conformação de macroproteínas das membranas pós-sinápticas, aumento dos neurotransmissores, neuromoduladores e das áreas sinápticas funcionais. Essas etapas ocorrem durante todas as fases, desde o registro e aquisição da informação até seu armazenamento e evocação.
Para os teóricos Construcionistas, tendo como ícone Piaget, o desenvolvimento é construído a partir de uma interação entre o desenvolvimento biológico e as aquisições da criança com o meio.Temos ainda uma abordagem Sociointeracionista, de Vygotsky, segundo a qual o desenvolvimento humano se dá em relação nas trocas entre parceiros sociais, através de processos de interação e mediação.
A aprendizagem significativa, conceito desenvolvido pelo psicólogo educacional americano Ausubel(2003), supõe que o fator mais importante de que depende a aprendizagem de um aluno é partir daquilo que ele já sabe, que já está incorporado em sua estrutura cognitiva, para, somando-se com as novas idéias recebidas, construir novos conhecimentos que tenham significado para o aprendiz.
O recurso de escutar o que a própria criança, ou o adolescente, tem a dizer sobre a sua dificuldade, é o que possibilita não apenas a elucidação de elementos de subjetividade, como também a extração de um método de intervenção reeducativo particularizado.
Muitos professores ensinam suas matérias sempre da mesma maneira. Aos alunos, resta, como último recurso, decorar os conteúdos ensinados, em vez de aprendê-los. Aprender significa trilhar caminhos próprios, pesquisar e experimentar coisas. Curiosidade, interesse, alegria e motivação são os pré-requisitos necessários ao aprendizado do que quer que seja. Não basta entender como se aprende, é preciso descobrir a melhor forma de ensinar.
Palavras-chave: aprendizagem, conhecimento, neurobiologia

INTRODUÇÃO
A aprendizagem é o processo pelo qual o organismo obtém uma informação do meio, constrói uma representação dessa informação, e que, armazenada em sua memória, essa informação é utilizada para gerar sua conduta em resposta às perturbações e solicitações advindas do ambiente.
Para que isso aconteça, é necessário que ocorra a maturação de funções biológicas e psíquicas, e que o indivíduo tenha uma interação com o meio social onde vive, o que lhe permitirá o desenvolvimento de habilidades e competências necessárias para responder às exigências do ambiente de forma adequada.
A apreensão do conhecimento requer a maturação de funções biológicas, o desenvolvimento de estruturas psíquicas, a interação do indivíduo com o ambiente e com seus semelhantes, a utilização de recursos pedagógicos e tecnológicos.
O professor conhecedor de como acontece as modificações neurobiológicas decorrentes da armazenagem de informação e dos processos psíquicos, psicológicos, relacionais e subjetivos que favorecem a aprendizagem, pode contribuir de forma mais efetiva para que seu aluno possa construir e aplicar o conhecimento dentro da sua realidade.
Este trabalho tem como objetivo identificar as várias instâncias envolvidas no processo da apreensão de informações, na transformação das informações apreendidas em conhecimento, e de como o conhecimento desses processos pode contribuir para uma melhor relação professor-aluno e como o professor pode se utilizar desses conhecimentos para desenvolver técnicas de atuação na sala de aula que tornem a aprendizagem mais atraente e mais efetiva.

Capítulo 1  Como tudo começou – uma perspectiva evolutiva
1.1 Interagindo com o mundo ao seu redor
Para Maturana(1998), biólogo chileno, os seres vivos são compreendidos como “entes dinâmicos autônomos em contínua transformação em coerência com suas circunstâncias de vida”. Segundo ele, a noção de viver-conhecer está diretamente vinculada com o modo de relacionar-se e de organizar-se nessa relação.
Segundo Lima(2011), biólogo e analista ambiental do Ibama, no artigo “Contribuições da etologia comparada para uma nova percepção da comunicação humana”, a adaptação dos padrões de comportamento de um organismo ao seu meio ocorre de maneira análoga à de seus órgãos, ou seja, através das informações que a espécie acumulou, ao longo de sua evolução, pelo método da seleção natural e pela mutação.

Ele diz que,

“A necessidade que os animais têm de se inter-relacionar para sobreviver torna impossível que qualquer um deles possa viver isoladamente. Por isso, quase sempre existe uma interação social entre os animais. Um exemplo da importância da comunicação para a sobrevivência e, até mesmo, para a evolução das populações animais, é o aprendizado. Em alguns animais, muitos comportamentos são passados de uma geração a outra, de forma a se tornarem duráveis ou permanentes. Tais traços de comportamento fixados determinam uma característica que se perpetua através da observação dos indivíduos mais velhos pelos mais novos.”

Muitos organismos simples, mesmo aqueles com apenas uma única célula e sem cérebro, executam ações de forma espontânea ou em resposta a estímulos do ambiente. Essas ações, principalmente as que acontecem em resposta a estímulos do ambiente, são causadas por ordens vindas de um cérebro.
            A medida que os organismos adquiriram maior complexidade, as ações em resposta às ordens do cérebro também ficaram mais complexas, necessitando de um maior processamento cerebral e de que circuitos fossem sendo estabelecidos entre os neurônios, para permitir que tal processamento acontecesse.
            Essas modificações nos circuitos cerebrais, que aconteceram em resposta a estímulos do ambiente, provocando modificações no comportamento do organismo, para melhor se adaptar as exigências do ambiente, pode perfeitamente ser considerado um aprendizado, pois, segundo o próprio Humberto Maturana(1998), já citado anteriormente, no seu livro “Da biologia a psicologia” diz que,  o aprendizado acontece quando a conduta de um organismo varia de maneira congruente com as variações do meio. Idéia corroborada por Vygotsky(2001), educador russo, quando diz que a aprendizagem é o processo pelo qual o indivíduo adquire informações e habilidades, a partir de seu contato com o meio ambiente.

1.2  A consciência ampliada
Damásio(2000), neurocientista português, no seu livro “O mistério da consciência”, dá uma idéia da construção de comportamento complexo, a partir da interação com o meio,  quando fala do conceito de “Consciência Ampliada”.
            Segundo ele, um organismo com consciência ampliada é capaz de planejar comportamentos complexos, não só no momento presente, mas também de planejar para o futuro. E que, a consciência ampliada é necessária para a mobilização de recursos e conhecimentos e tem a capacidade de utilizar esses conhecimentos para a solução de problemas.
            Para Kulevicz(2009), neuropsicólogo e formado em filosofia, no artigo “Contribuição da neurociência para a filosofia da mente”, publicado no Jornal de Ciências Cognitivas, da Sociedade Portuguesa de Ciências Cognitivas, a inteligência consciente deve ser tratada como um fenômeno evolutivo, pois, o surgimento dos organismos multicelulares, e a conseqüente especialização celular, levaram ao surgimento de circuitos neurais cada vez mais complexos, e, pelo processo evolutivo de mutações adaptativas, ao surgimento de organismos que não apenas percebessem o ambiente a sua volta, para o suprimento de suas necessidades de alimentação, mas também que fossem capazes de interagir com o seu meio, e até de provocar mudanças no ambiente, criando um novo paradigma. O animal que evoluíra para se adaptar às mudanças do ambiente, agora provocando mudanças no ambiente para adaptá-lo às suas necessidades.

1.3 O surgimento da mente humana
Para Cardoso(2010), psicobióloga, no artigo “O que nos faz unicamente humano ?”, publicado na revista eletrônica Cérebro e Mente, o crescimento gradativo da capacidade craniana e do volume do cérebro, o aparecimento da postura ereta permanente, o surgimento do uso de ferramentas e da cultura simbólica, o domínio de tecnologias como o fogo e a construção de abrigos, a caça, etc., levaram o surgimento, 2 milhões de anos atrás, do Homo habilis ("homem habilidoso") e do Homo erectus ("homem ereto"), as primeiras espécies que talvez possamos considerar "humanas", no seu sentido moderno, pois desenvolveram a linguagem falada complexa, a construção de ferramentas, as vestimentas, o fogo, etc.
Segundo Cardoso(2010),
o Homo sapiens neandertalensis, surgido há 300 mil anos atrás, e o Homo sapiens sapiens, há 120 mil anos, aumentaram a capacidade craniana para o valor atual (1350 cm3), invadiram todos os rincões da Terra, mesmo os mais distantes e inóspitos, desenvolveram as representações simbólicas, como a arte pictórica, a escultura e a música, os adornos corporais, as armas de guerra, a medicina, a domesticação de animais, a agricultura, e as crenças espirituais, como as religiões, o culto ao invisível, os ritos funerais e as superstições mágicas. Todas essas características e "invenções" eram unicamente culturais e transmissíveis entre seres humanos através do aprendizado, e são únicas entre as espécies animais, inclusive outros primatas.
Para ela, compartilhamos o instinto e o hábito com os animais. O instinto é inato e o hábito é adquirido, mas, como o instinto, tende a realizar-se automaticamente. Por exemplo, quem aprende a andar de bicicleta ou a nadar, realiza maquinalmente os gestos necessários, depois de adquiri-los. A inteligência difere do instinto e do hábito por sua flexibilidade, pela capacidade de encontrar novos meios para um novo fim, ou de adaptar meios existentes para uma finalidade nova, pela possibilidade de enfrentar de maneira diferente situações novas e inventar novas soluções para elas, pela capacidade de escolher entre vários meios possíveis e entre vários fins possíveis.
Quando o homem se tornou um animal tribal, desde que começou a andar ereto, mais de 4 milhões de anos atrás, ele passou a ser um caçador e guerreiro tribal, onde a cooperação social era um fator importante de sobrevivência. Todos os instintos sociais humanos se desenvolveram bem antes da esfera intelectual: instinto maternal, cooperação, curiosidade, criatividade, compaixão, altruísmo, competitividade, etc., são muito antigos, e podem ser vistos já nos antropóides. Gradativamente, o homem desenvolveu o auto-controle e a capacidade de modificar comportamento social, mesmo que instintivo, de maneira a torná-lo mais útil para sua sobrevivência.
Na concepção de Cardoso(2010,
Nossa mente se desenvolveu para resolver problemas dos nossos antepassados caçadores e coletores do pleistoceno, há cerca de 2,5 milhões de anos atrás. Foi o modo de vida deles que forjou grande parte das estruturas mentais que dispomos hoje. As características funcionais complexas da mente humana se desenvolveram como respostas às demandas do estilo de vida de caçadores e coletores, mais do que nos dias de hoje. A curta existência do homem atual, cerca de apenas 10.000 anos, não é suficiente para gerar e consolidar as adaptações necessárias à vida social.
Do ponto de vista psicológico, a consciência é o sentimento de nossa própria Identidade. Ao longo de sua evolução, o homem humanizou-se, transformou-se em um ser que pensa, que deseja, que é construído pela cultura, a partir do momento que começou a interagir com mundo, a transformar o mundo, e a adaptar-se de forma mais eficaz às condições dos ambientes hostis. Tudo isso só foi possível graças a capacidade do homem de aprender, de acumular conhecimentos, e de utilizar esses conhecimentos apreendidos para desenvolver técnicas que o auxiliam no enfrentamento das adversidades.
Capítulo 2 -  Uma visão neurobiológica
O sistema nervoso é uma rede fechada de elementos celulares na qual toda mudança nas relações de atividade de alguns de seus componentes sempre dispara uma mudança de atividade em outros componentes da rede, entre os quais podem incluir-se eles mesmos. A organização do sistema nervoso é a de uma rede fechada de componentes que interatuam entre si, provocam uns nos outros mudanças de atividade que resultam em novas interações entre eles. Tal organização é a que se mantém invariável enquanto o sistema nervoso se mantém como sistema nervoso, em sua mudança estrutural com conservação da organização e o acoplamento estrutural que constitui seu acontecer como componente de um organismo.
Neurobiólogos descrevem o cérebro como um sistema dinâmico que, no nascimento, dispõe de um estoque básico de saber prévio, e começa, de imediato, a dirigir perguntas ao exterior. O fluxo das informações provenientes dos sentidos e a interação dinâmica e constante com o meio determinarão como o cérebro irá se desenvolver, o que vamos aprender e que talentos desenvolveremos.
Processos de aprendizagem modelam o cérebro dotado de sinapses em excesso. Eles dissolvem conexões pouco utilizadas ou fortalecem as ativas e de uso freqüente. Desde o tatear inicial do bebê, passando pela fala, pelo conhecimento pormenorizado, até os vocábulos mais complexos, tudo o que aprendemos altera nossa rede neuronal. Assim, o desenvolvimento das capacidades cognitivas e o do cérebro estão vinculados um ao outro de forma indissociável (Schumacher 2007).
A multiplicação dos estímulos exteriores determina qual será a complexidade das ligações entre as células nervosas e como elas se comunicarão entre si. É somente quando o desenvolvimento do cérebro é determinado por aquilo que se aprendeu e experimentou que a adaptação do cérebro ao ambiente em que vivemos se dá de forma ideal.
Por quais estímulos nos decidimos é algo que depende também de fatores internos, e principalmente do significado que atribuímos a um evento. Cada mensagem provinda dos sentidos faz o cérebro vasculhar a memória em busca de informações pertinentes a ela.
Quanto maior a quantidade de dados semelhantes preexistentes,tanto mais fácil é a fixação do novo. Aprender é, pois, um processo que se auto-alimenta. No cotidiano escolar tradicional, raras vezes procura-se expandir as capacidades preexistentes.
Para Schumacher(2007),
Logo ao nascer, todo ser humano possui centenas de bilhões de neurônios, número que sofre pequena redução ao longo da vida. De início, surgem sinapses uniformemente distribuídas. Quando, porém, certos neurônios respondem a estímulos que se manifestam em conjunto, disparando neurônios de forma sincronizada, as sinapses entre tais neurônios se fortalecem e perduram por longo tempo. Embora o aprendizado jamais tenha fim, as bases do saber futuro são lançadas em grande parte já na infância. Passada a puberdade, o cérebro se deixa modelar com menos facilidade, e a formação de novas conexões sinápticas torna-se mais rara.
A neurobiologia mostra também que se aprende melhor quando o objeto do aprendizado tem um conteúdo emocional. As informações revestidas de colorido emocional não apenas encontram com mais facilidade o caminho até a memória de longa duração, mas também permanecem mais acessíveis, prontas para serem evocadas.
No cérebro, a solução dos problemas complexos depende da conexão que se estabelece entre os neurônios especializados na solução de diferentes tarefas. A plasticidade dessas conexões permite que se aprenda a solucionar novos problemas.
Os diversos neurônios, das diversas áreas cerebrais, se especializam em tarefas definidas. Assim, uns são especializados para o processamento de informação visual, outros para o processamento auditivo, outros para o tato, etc. O aprender, por exemplo, de uma resposta motora a uma informação verbal, depende de aumentar a eficácia da transmissão sináptica entre neurônios encarregados da análise do som verbal e aqueles encarregados de controlar a resposta motora. A memória e a aprendizagem dependem, portanto, do relacionamento entre neurônios, relacionamento este que é governado por moléculas.
Segundo Rocha(2000), professor da UNICAMP e pesquisador da aprendizagem e cognição, em entrevista cedida e Revista Interface,
todo o processamento cerebral tem uma base bioquímica. A atividade elétrica da membrana depende do aporte metabólico para essa membrana, que por sua vez é controlado por vários sistemas enzimáticos, ativados pelos próprios íons envolvidos na gênese do potencial elétrico de membrana. A transmissão de informação entre os neurônios depende de uma troca molecular intensa entre esses neurônios. Assim, a chegada do pulso elétrico na terminação nervosa do neurônio pré-sináptico acarreta a entrada de cálcio, que controla a liberação de moléculas denominadas transmissores, estocadas em vesículas, nessa terminação. O transmissor é liberado pela célula pré-sináptica para agir na membrana da célula pós-sináptica. O acoplamento químico entre o transmissor e receptores específicos para esse transmissor, localizado na membrana da célula pós-sináptica exerce uma de duas funções:
1. Abrir um canal iônico permitindo que a atividade elétrica da célula pré-sináptica influencie a atividade elétrica da célula pós-sináptica ou;
2. Ativar uma cadeia de reações enzimáticas, chamada de via de transdução de sinal, ou simplesmente VTS.
Pare ele, muitas das VTSs das células pré-sinápticas e pós-sinápticas controlam a produção do próprio transmissor e seu receptor. Dessa maneira, a atividade em uma sinápse pode definir a quantidade de mediadores e receptores utilizados na transmissão da informação nessa própria sinapse. Essa base molecular do controle da eficácia da transmissão da informação em termos das sinapses é o mecanismo básico para explicar o aprendizado e a memória.
Os processamentos cerebrais dependem de como esses neurônios podem ser associados. Isto é, dependem da eficácia da transmissão sináptica entre eles.
A base molecular do aprendizado e da memória deve ser entendida a partir do controle de processos que estabilizam sinapses relevantes ao fato a ser aprendido ou memorizado. A memória biológica é uma memória endereçada por conteúdo. Em outras palavras, é definida a partir de relações entre eventos ou fatos. Dessa maneira, a evocação de um dado evento deve, em geral, facilitar a lembrança de outros fatos a ele relacionados (Rocha 2001).

2.1 A memória a e armazenagem de informações
Memória é a capacidade que certos seres vivos têm de armazenar, no sistema nervoso, dados ou informações sobre os meios que os cerca, para assim modificar o próprio comportamento.
A memória depende da totalidade do lobo temporal medial. Outras regiões cerebrais também desempenham função importante na memória: o córtex, o tálamo, o septum, o estriado, o cerebelo, etc. Esse papel pode incidir diretamente ou indiretamente na elaboração ou armazenamento do traço de memória.
Para Potier(2007,
As memórias são criadas quando os neurônios em um circuito reforçam a sensibilidade de suas conexões, conhecidas como sinapses. No caso das memórias de curto prazo, o efeito dura apenas de minutos a horas. Para memórias de longo prazo, as sinapses tornam-se permanentemente fortalecidas. Toda impressão sensorial que o sistema de atenção considera relevante deposita-se, primeiramente, na memória de curta duração. Sua fixação mais duradoura no cérebro dependerá da intensidade da impressão provocada nele, e de ele seguir ou não se ocupando dela. Isso demanda alterações químicas e elétricas capazes de fortalecer os contatos sinápticos. As células nervosas, interconectadas, vão pouco a pouco formando um padrão de conexões sólidas que constituem a memória de longa duração.
Segundo ele, ambas as memórias nascem de conexões entre os neurônios, em pontos de contato chamados sinapses. Nelas, um prolongamento dos neurônios, o axônio, encontra as extremidades receptoras de sinais, os dendritos. Quando uma memória de curta duração é criada, uma estimulação da sinapse é suficiente para sensibilizá-la aos subseqüentes.
Os neurotransmissores se ligam aos receptores no dendrito, desencadeando uma despolarização local na membrana da célula pós-sináptica. As mensagens começam a viajar entre um neurônio, a célula pré-sináptica, e outro, quando um pulso elétrico chamado de potencial de ação, viaja por uma extensão do primeiro neurônio, o axônio, até chegar à sua ponta.
As lembranças e as percepções se baseiam em redes de neurônios interconectadas. Cada nova percepção acrescenta conexões a uma rede em que já estão enraizadas as percepções anteriores. Cada neurônio ou grupo de neurônios pode fazer parte de várias redes e, consequentemente, de várias lembranças.
Graças as novas conexões, toda experiência é integrada às redes que já existem e que ela ativa. O novo evoca o antigo e, por associação e consolidação, torna-se parte integrante dele.
A memória envolve não só percepções, ações e objetivos, mas também sentimentos, imaginação e trajetória do pensamento. O conjunto de experiências acumuladas no cérebro é a marca de nossa identidade.
As experiências sensoriais deixam traços no cérebro ao modificar a eficácia dos contatos sinápticos entre neurônios, fortalecendo assim a estrutura das redes neuronais. Dependendo do se grau de ativação durante a experiência sensorial, certas sinapses são reforçadas, outras enfraquecidas e novas aparecem.
Segundo os neurocientistas, quanto mais recursos forem empregados na transmissão de uma informação, tanto melhor ela se fixará na memória de longa duração. É mais fácil aprender com a colaboração do maior número possível de órgãos dos sentidos. Ao que todo indica, o sistema de busca de informações chamado cérebro sabe quais os pontos fortes de seu dono e procura explorá-los e expandi-los. A criança se interessará mais naquilo que ela sabe melhor, e será também sobre isso que ela fará mais perguntas. Por esse motivo, a tarefa mais importante de pais e educadores consiste em descobrir o que a criança domina melhor, o que desperta sua curiosidade. Somente educadores que conhecem as capacidades de seus alunos podem dar ao cérebro aprendiz o alimento que ele demanda.

2.2 Como o cérebro aprende
Para Wong(2005),
O que mais distingue os humanos de outras criaturas é a capacidade de criar e operar uma grande variedade de representações simbólicas. Essa habilidade nos permite transmitir informações de uma geração à outra e adquirir repertório sobre certos assuntos sem ter experiência direta com eles. Por causa do papel fundamental da simbolização em quase tudo o que fazemos, talvez nenhum aspecto do desenvolvimento humano seja mais importante que compreender símbolos.
Até pouco mais de 20 anos, pesquisadores acreditavam que o sistema nervoso central dos mamíferos poderá ser modificado apenas por um período limitado do desenvolvimento. No entanto, estudando o funcionamento do sistema nervoso a partir de uma perspectiva macroscópica, etólogos e psicólogos constataram que o repertório comportamental do adulto apresenta certo grau de plasticidade.
Para Schumacher(2007), os tecidos cerebrais nervosos dever ser pensados como conjuntos dinâmicos que são continuamente modelados pela experiência sensorial e pela aprendizagem.
Por quais estímulos nos decidimos é algo que depende também de fatores internos, e principalmente do significado que atribuímos a um evento. Cada mensagem provinda dos sentidos faz o cérebro vasculhar a memória em busca de informações pertinentes a ela. Reúne-se tudo que já se aprendeu ou experimentou no passado a seu respeito.
Quanto maior a quantidade de dados semelhantes preexistentes, tanto mais fácil é a fixação do novo. Aprender é, pois, um processo que se auto-alimenta. No cotidiano escolar tradicional, raras vezes procura-se expandir as capacidades preexistentes.
A neurobiologia mostra também que se aprende melhor quando o objeto do aprendizado tem um conteúdo emocional. As informações revestidas de colorido emocional não apenas encontram com mais facilidade o caminho até a memória de longa duração, mas também permanecem mais acessíveis, prontas para serem evocadas.
Apenas os sentimentos são capazes de transformar uma aula numa experiência pessoal, porque nesse caso os conteúdos a aprender passarão a significar alguma coisa para o aluno.
A aprendizagem requer crescimento e formação de novas conexões sinápticas, crescimento de espículas dendríticas, mudança de conformação de macroproteínas das membranas pós-sinápticas, aumento dos neurotransmissores, neuromoduladores e das áreas sinápticas funcionais. Essas etapas ocorrem durante todas as fases, desde o registro e aquisição da informação até seu armazenamento e evocação.

Capítulo 3 -  Teorias da educação
A noção de desenvolvimento está atrelada a um contínuo de evolução, em que nós caminharíamos ao longo de todo o ciclo vital. Este caminhar contínuo não é determinado apenas por processos de maturação biológicos ou genéticos.
Para os teóricos Construcionistas, tendo como ícone Piaget, o desenvolvimento é construído a partir de uma interação entre o desenvolvimento biológico e as aquisições da criança com o meio.Temos ainda uma abordagem Sociointeracionista, de Vygotsky, segundo a qual o desenvolvimento humano se dá em relação nas trocas entre parceiros sociais, através de processos de interação e mediação.

3.1 Vygotsky
Vygotsk(2001), pesquisador russo dos processos de aprendizagem, diz que aprendizagem é o processo pelo qual o indivíduo adquire informações, habilidades, atitudes, valores, etc. a partir de seu contato com a realidade, o meio ambiente e com as outras pessoas. Ele diz que é o aprendizado que possibilita o despertar de processos internos do indivíduo, ligando o desenvolvimento da pessoa à sua relação com o ambiente sócio-cultural em que vive, e reconhece que a situação do homem como organismo não desenvolve plenamente sem o suporte de outros indivíduos de sua espécie.
As características de cada indivíduo vão sendo formadas a partir das inúmeras e constantes interações do indivíduo com o meio, compreendido como contexto físico e social, que inclui as dimensões interpessoal e cultural. Nesse processo dinâmico, ativo e singular, o indivíduo estabelece, desde o seu nascimento e durante toda a sua vida, trocas recíprocas com o meio, já que, ao mesmo tempo que internaliza as formas culturais, as transforma e intervém no universo que o cerca.
Assim, as características do funcionamento psicológico como o comportamento de cada ser humano são, nesta perspectiva, construídos ao longo da vida do indivíduo através de um processo de interação com o seu meio social, que possibilita a apropriação da cultura elaborada pelas gerações precedentes.
Vygotsky enfatizava o processo histórico-social e o papel da linguagem no desenvolvimento do indivíduo. Sua questão central é a aquisição de conhecimentos pela interação do sujeito com o meio. Para o teórico, o sujeito é interativo, pois adquire conhecimentos a partir de relações intra e interpessoais e de troca com o meio, a partir de um processo denominado mediação.
Para Vygotsky(2001),
não é suficiente ter todo o aparato biológico da espécie para realizar uma tarefa se o indivíduo não participa de ambientes e práticas específicas que propiciem esta aprendizagem. Não podemos pensar que a criança vai se desenvolver com o tempo, pois esta não tem, por si só, instrumentos para percorrer sozinha o caminho do desenvolvimento, que dependerá das suas aprendizagens mediante as experiências a que foi exposta.
A teoria desenvolvida por Vygotsky tem como base a construção sócio-histórica ou histórica-cultural da mente humana. O seu enfoque centrava-se na questão de como os fatores sociais e culturais influenciavam o desenvolvimento intelectual, a aquisição de conhecimentos pela interação do sujeito com o meio. O núcleo central de sua teoria trata de como os indivíduos, interagindo com colegas e com instrutores, constroem e internalizam o conhecimento.
Vygotsky enfatizou como o papel da linguagem, um sistema simbólico dos grupos humanos, representa um salto qualitativo na evolução da espécie. É ela que fornece os conceitos, as formas de organização do real e a mediação entre o sujeito a o objeto do conhecimento. É por meio dela que as funções mentais são formadas e transmitidas.
Os fatores sociais, de acordo com Vygotsky(1991, desempenham um papel fundamental no desenvolvimento intelectual. Quando o conhecimento existente na cultura é internalizado pelas crianças, as funções e as habilidades intelectuais são provocadas ao desenvolvimento desse conhecimento. Sabendo-se que o aprendizado leva ao desenvolvimento, então esse círculo leva ao desenvolvimento contínuo, a partir do conhecimento acumulado.
Na concepção de Vygotsky, todo ser humano se constitui um "ser" pelas relações que estabelece com os outros seres humanos. O sujeito é interativo, porque forma conhecimentos e se constitui a partir de relações intra e interpessoais. É na troca com outros sujeitos e consigo próprio que se vão internalizando conhecimentos, papéis e funções sociais, o que permite a formação do conhecimento e da própria consciência. A aprendizagem é o processo pelo qual o indivíduo adquire informações, habilidades, atitudes e valores a partir de seu contato com a realidade, com o meio ambiente e com pessoas.
Em Vygotsk(1991), ao contrário de Piaget, o desenvolvimento psicológico e mental, que é promovido pela convivência social, além das maturações orgânicas, depende também da aprendizagem na medida em que se dá por processos de internalização de conceitos que são promovidos pela aprendizagem social.
3.2 Piaget
Piaget sempre rejeitou a posição inatista, que se apóia em fatores hereditários e maturacionais para o desenvolvimento da inteligência, e a posição ambientalista, que é apoiada em fatores ambientais como determinantes para a constituição da inteligência. Com uma posição interacionista, Piaget diz que a inteligência se apóia em fatores hereditários e maturacionais, mas que depende da interação com o ambiente para se desenvolver.
Piaget demonstrou que a aprendizagem é um processo cognitivamente ativo e interativo, que o conhecimento é algo a ser construído, e não passivamente recepcionado. Defendendo a idéia de que a estrutura cognitiva funciona através do movimento contínuo, onde a aprendizagem é assimilada, filtrada e interpretada segundo a capacidade da estrutura cognitiva interna do indivíduo.
Por defender a idéia de que a inteligência é construída pelo indivíduo, por meio da interação com o ambiente, sua teoria recebeu a denominação de Construtivismo. Teoria que diz que uma criança interage com o mundo diferentemente de um adulto, pelo simples motivo de que suas estruturas cognitivas são qualitativamente diferentes.
Segundo Piaget(1971), o processo de interação/construção da inteligência compreende a influência de quatro fatores:
Maturação orgânica – o desenvolvimento do sistema nervoso e suas conexões nervosas são de extrema relevância para a formação das estruturas cognitivas, embora condição necessária mas não suficiente;
Experiência -as manipulações físicas e cognitivas do sujeito sobre os objetos permite a construção do conhecimento e a possibilidade de operar mentalmente com ele;
Transmissão social – as informações advindas do meio fazem a criança e o adolescente interrogarem os acontecimentos da realidade;
Equilibração – o desenvolvimento da inteligência caracteriza-se pelo movimento contínuo de um estado de desequilíbrio para um estado de equilíbrio.
Segundo o construtivismo, teoria desenvolvida por Piaget, o conhecimento se constrói na interação do sujeito com o objeto. As estruturas não estão Pré-formadas dentro do sujeito, mas são construídas, ocorrendo uma construção contínua de estruturas variadas.
Para Piaget(1971), dentro da reflexão construtivista sobre desenvolvimento e aprendizagem, esse processo se dá principalmente considerando-se a maturação das funções biológicas. Já na perspectiva sócio-interacionista, ou sócio-histórica, abordada por Vygotsky(1991), a relação entre o desenvolvimento e a aprendizagem está atrelada ao fato de o ser humano viver em meio social.
3.2.1 Estágios do desenvolvimento cognitivo, segundo Piaget
Desenvolver, no sentido cognitivo e orgânico, significa estabelecer uma relação de aprendizado, troca e comunicação intensa entre o organismo e o ambiente no qual esse organismo vive.
A aprendizagem, decorrente da interação adaptativa do sujeito com o objeto, é construída segundo diversos estágios do desenvolvimento cognitivo:
Senso-motor (0-24 meses) – neste estágio a criança é desprovida de linguagem, interagindo com os objetos a partir de suas sensações e ações motoras;
Pré-operatório (2 a 7 anos) – a criança desenvolve a capacidade simbólica, caracterizando-se pelo egocentrismo, onde a criança ainda não se mostra capaz de colocar-se na perspectiva do outro;
Operações concretas (7 a 11 ou 12 anos) – neste período, a criança adquire a capacidade de estabelecer relações e coordenar pontos de visa diferentes, próprios e do outro, e de integrá-los de modo lógico e coerente;
Operações formais (11 ou 12 anos em diante) – nesta fase a criança amplia as capacidades conquistadas anteriormente, conseguindo raciocinar sobre hipóteses,na medida em que ela é capaz de formar esquemas conceituais abstratos, e através desses esquemas, executar operações mentais dentro de princípios da lógica formal.
De acordo com a tese piagentina, ao atingir a fase de operações formais, o indivíduo adquire sua forma final de equilíbrio, alcançando o padrão intelectual que persistirá durante a idade adulta, e que seu desenvolvimento posterior consistirá numa ampliação de conhecimentos, e não na aquisição de novos modos e funcionamento mental.
3.3  Ausubel
Grande parte da psicologia da aprendizagem que os professores em formação estudam hoje em dia baseia-se em resultados de experiências de aprendizagem por memorização, sem qualquer tentativa de se testar a sua aplicabilidade ao tipo de situações de aprendizagem que existem realmente nas salas de aula.
Do ponto de vista de uma abordagem cognitiva, considera-se o conhecimento mais como um estado ideário do que uma capacidade de resolução de problemas e, as funções de transferência da estrutura cognitiva se aplicam de forma mais significativa à aprendizagem por recepção do que à resolução de problemas, na situação típica da aprendizagem na sala de aula.
A aprendizagem significativa, conceito desenvolvido pelo psicólogo educacional americano Ausubel(2003), supõe que o fator mais importante de que depende a aprendizagem de um aluno é partir daquilo que ele já sabe, que já está incorporado em sua estrutura cognitiva, para, somando-se com as novas idéias recebidas, construir novos conhecimentos que tenham significado para o aprendiz.
A aprendizagem por recepção e a retenção significativas são importantes para a educação, pois são os mecanismos humanos por excelência para a aquisição e o armazenamento de idéias e informações representadas por qualquer área do conhecimento.
Segundo Ausubel(2003),
a aprendizagem significativa constitui apenas a primeira fase de um processo de assimilação. As idéias novas interagem com as idéias relevantes já existentes e o produto final desta interação torna-se, para o aprendiz, o significado das idéias da instrução acabadas de introduzir.
Na aprendizagem significativa, a estrutura cognitiva é sempre uma variável relevante. Se a estrutura cognitiva for clara, estável e organizada, surgem significados precisos e inequívocos e estes têm tendência a reter a força de dissociabilidade ou disponibilidade. Por outro lado, se a estrutura cognitiva for instável, ambígua ou desorganizada, tem tendência a inibir a aprendizagem significativa e a retenção. Assim, é através do fortalecimento de aspectos relevantes da estrutura cognitiva que se pode facilitar a nova aprendizagem e retenção(Ausubel 2003).
Um organizador avançado, um outro termo desenvolvido por Ausubel, é um mecanismo pedagógico que ajuda a implementar os princípios da aprendizagem significativa, estabelecendo uma ligação entre aquilo que o aprendiz já sabe e aquilo que precisa de saber.
A fundamentação lógica para a utilização dos organizadores baseia-se essencialmente na importância de possuir idéias relevantes ou apropriadas, já disponível na estrutura cognitiva, para fazer com que as novas idéias se tornem potencialmente significativas e, somando-se às idéias já existentes, tornem-se idéias relevantes.
A capacidade de transformar idéias potencialmente significativas, por parte do aprendiz, em idéias relevantes, depende da capacidade intelectual do mesmo, essencial para a compreensão e manipulação das novas idéias. A capacidade de raciocínio abstrato representa em termos de desenvolvimento, o nível de cognição mais elevado ou maduro do homem, tornando possível um nível comparativamente elevado de raciocínio ou de resolução de problemas que lhe permite desenvolver todas as interações possíveis entre representações relevantes (Ausubel 2003).
Alguns fatores que influenciam a aprendizagem, a retenção e o processo de raciocínio:
Abertura e complexidade crescentes do campo cognitivo;
Familiaridade crescente do mundo psicológico;
Maior diferenciação da estrutura cognitiva;
Maior precisão e especificidade de significados;
Domínio de conceitos mais abstratos;
Maior capacidade de compreender e manipular abstrações.
Muitas fontes de evidência apontam para a conclusão de que a aprendizagem e a retenção significativas são mais eficazes do que as correspondentes por memorização.
Para Ausubel(2003), os serem humanos têm tendência a trabalhar mais e sentem-se muito mais motivados quando as atividades de aprendizagem que iniciam fazem sentido. Quando a aprendizagem surge acompanhada de interiorização e de compreensão, formam-se relações que serão recordadas durante mais tempo.
A aprendizagem por recepção significativa envolve mais do que a simples catalogação de conceitos acabados na estrutura cognitiva existente. Em primeiro lugar, é necessário um julgamento implícito de relevância para se decidir qual é o conceito existente que vai servir de base às novas idéias. Em segundo lugar, é necessário algum grau de reconciliação com os conhecimentos existentes se existirem discrepância entre eles e os novos conhecimentos adquiridos.

Capítulo 4 -  Caminhos da aprendizagem 
4.1 O que é o aprender
A aprendizagem é o processo mediante o qual o organismo obtém uma informação do meio e constrói uma representação dele, que armazena em sua memória e utiliza para gerar sua conduta em resposta às perturbações que dele provém. Deste ponto de vista, a lembrança consiste em encontrar na memória a representação procurada para computar respostas adequadas às interações recorrentes do meio.
Segundo maturana(1998), existe aprendizagem quando a conduta de um organismo varia durante sua ontogenia, período que engloba a fertilização do óvulo até a fase adulta, de maneira congruente com as variações do meio, e o faz seguindo um curso contingente a suas interações nele.
O aprender, necessariamente, se revela pela modificação de comportamentos. Modificações que podem determinar a sobrevivência do indivíduo, e que contribuem para a evolução do homem, no tocante ao seu desenvolvimento social.
Segundo Carvalho(2008),
para que aconteça realmente o aprendizado, não basta apenas a transmissão de um conhecimento, mas sim a construção de habilidades e competências, e o professor dessa era de globalização e de exigências cada vez mais multidisciplinar no exercício das profissões, não pode mais ser o mestre que detêm o saber , e que o transmite aos seus discípulos, mas sim um facilitador, que auxilia o aluno a construir o seu aprendizado, e que também faz parte desse processo, sempre adquirindo novos conhecimentos.
Para ela, para que o processo de aprendizagem aconteça de forma eficaz, é necessário que o professor adquira não mais apenas os conhecimentos relacionados com a disciplina que vai lecionar, mas também conhecimentos referentes aos processos de aprendizagem, aos processos de construção do homem, enquanto sujeito da linguagem, e principalmente, conhecimentos referentes aos processos cognitivos que levam o homem a apreender informações, e a transformar essas informações em conhecimento.
Segundo Maturana(1998), um fio condutor que nos ajuda ir refletindo a educação e a prática educativa é a mudança na finalidade da educação, passando da busca mercadológica como objetivo educacional para a melhor qualidade do conviver humano, da qual o trabalho é decorrência, criação e não fim. Ele diz que a educação sempre é para que. Os grupos humanos, por situações diversas, vão pontuando, consciente ou inconscientemente, seus objetivos do educar. Para Maturana isso se dá de uma forma intersubjetiva. Em outras palavras, as ações são construídas nas ralações, mas de uma maneira autônoma e partilhada ao mesmo tempo. Atribui grande importância ao relacionar-se, mantendo a responsabilidade do sujeito por suas decisões. Por isso afirma que,
Nós, seres vivos, somos sistemas determinados em nossa estrutura. Isso quer dizer que somos sistemas tais que, quando algo externo incide sobre nós, o que acontece conosco depende de nós, de nossa estrutura nesse momento, e não de algo externo.

4.2  A interdisciplinaridade
O ato de aprender deve contemplar uma atitude problematizadora, iniciando-se com uma ação contemplativa diante da realidade que permita gerar um problema, e depois, a busca de uma explicação que o resolva. Desenvolvendo assim um espírito investigativo, que valoriza a dúvida e a incerteza, enquanto fundamento primeiro para a construção e elaboração do conhecimento.
Para Carvalho(2008), historicamente, a prática pedagógica e o processo de aprendizagem foram associados a disciplinaridade, estrutura constituída por um conjunto de disciplinas seqüenciadas e dissociadas, com uma abordagem fragmentada e isolada dos conteúdos. Neste contexto, a aquisição do conhecimento fica condicionada, por um lado, ao domínio de determinada unidade da realidade, e, por outro, a um elemento ou a alguns elementos dessa unidade, ou seja, o conhecimento é sempre e mais especializado.
Como o todo tem qualidades e propriedades que não são encontradas nas partes, se estas estiverem isoladas uma das outras, é preciso recompor o todo para conhecer as partes. O conhecimento interdisciplinar é aquele que percebe e pensa a realidade enquanto um acontecimento global e multidisciplinar, partindo do principio de que só a interação entre os diversos conteúdos das diversas disciplinas permite a apreensão da realidade, segundo as conexões entre seus diversos constituintes.
Diferentemente da disciplinaridade, a interdisciplinaridade concebe que a formação escolar não se dá apenas pela aquisição de conteúdos, sendo necessária também a aquisição de uma nova atitude sobre o uso deste conhecimento adquirido, permitindo a formação integral do indivíduo.
A atitude interdisciplinar permite o desenvolvimento do sujeito como um todo, de acordo com suas condições, possibilidades e entendimento.
A interdisciplinaridade se apresenta como uma possibilidade de resgate do homem frente à totalidade da vida. É como uma atitude, um novo olhar, que permite compreender e transformar o mundo, uma busca por restituir a unidade perdida do saber.
A interdisciplinaridade exige mudança, e esta implica rever, refazer, ressignificar, exercitar a metáfora do olhar que busca a pluralidade, considerando a singularidade.
O professor interdisciplinar deve ser um provocador de dúvidas, um incitador a reflexões e questionamentos, uma pessoa, que sabe o momento certo de interferir, mas que, ao mesmo tempo, aprende com seus alunos. Ao acontecer a atitude interdisciplinar, novos caminhos de ensino e pesquisa se abrem.
A interdisciplinaridade depende então, de uma mudança de atitude perante o problema do conhecimento. Da substituição de uma concepção fragmentária pela unitária do ser humano. Onde a valorização é centrada, não no que é transmitido, e sim no que é construído.

4.3  A subjetividade na relação professor-aluno
O educador não transmite apenas conteúdo, mas também passa muitas outras coisas inconscientemente para o aluno. Assim como também, o aluno não apenas recebe, mas transmite para o professor as suas motivações para aprender e o seu estado emocional.
É do conhecimento de todos as muitas dificuldades enfrentadas pela escola, sobretudo no que diz respeito ao relacionamento aluno-professor, aluno-sala de aula, aluno-direção, principalmente no enfrentamento ás dificuldades de aprendizagem e aos distúrbios de comportamento.
Alguma mudança nesse quadro só pode acontecer com o envolvimento de toda e equipe da escola, iniciando-se com a identificação dos casos difíceis, com a investigação das causas desses comportamentos, e com um acompanhamento comportamental, no sentido de provocar mudanças nesses comportamentos.
A escuta implica o outro em uma confrontação com o seu dizer, verbal ou comportamental, instalando-se questionamentos internos. E é sabido que verdadeiras mudanças não podem acontecer mediante imposição ou troca de interesses. Essas só acontecem quando também acontecem mudanças internas, mudanças de perspectivas, e essas só acontecem quando existe reflexão.
Esta dedicação, a escuta, é a principal ocupação da psicanálise. Escuta essa que faz surgir a particularidade do sujeito.
O desconhecimento da dimensão subjetiva na dificuldade de aprendizagem e nos distúrbios de comportamento muitas vezes inviabiliza qualquer tentativa de intervenção, e produz a segregação e exclusão do aluno do ensino regular.
            O recurso de escutar o que a própria criança, ou o adolescente, tem a dizer sobre a sua dificuldade, é o que possibilita não apenas a elucidação de elementos de subjetividade, como também a extração de um método de intervenção reeducativo particularizado.
            Com o envolvimento dos profissionais envolvidos, valendo-se de seus conhecimentos específicos, fazendo o estudo de caso abrangente, incluindo nesse estudo também a família do aluno, como também fazendo uma análise de sua participação em sala de aula, provoca-se também uma mudança nas posições subjetivas dos professores em relação às problemáticas de seus alunos.
            Essa mudança de posição possibilita que o professor se dê conta de sua implicação naquilo que era visto como um problema exclusivo do aluno, percebendo a importância de sua atuação na promoção das mudanças necessárias.

4.4 Rumo à mudança
Uma sociedade só cresce com a participação e colaboração de todos. Crescemos e construímos porque somos seres capazes de conviver em sociedade onde cada um contribui para o desenvolvimento do todo. No momento em que estamos participando ativamente do meio, estamos aprendendo e repassando conhecimentos.
Neste modelo, a criança deve ser reconhecida como ser pensante, capaz de vincular sua ação à representação de mundo que constitui sua cultura, sendo a escola um espaço e um tempo onde este processo é vivenciado, onde o processo de ensino-aprendizagem envolve diretamente a interação entre sujeitos.
A educação desempenha, hoje, papel fundamental na procura de conhecimento novo, de explicações novas, de um saber-fazer novo, mais global, holístico e integral. Numa visão multidimensional, o processo educativo decorre dos aspectos inseparáveis e simultâneos que envolvem o físico, o biológico, o mental, o psicológico, o cultural e o social; enfatizando a consciência da inter-relação e interdependência essencial entre todos os fenômenos da natureza, o que implica a concepção de uma realidade a ser transformada. A possibilidade de um trabalho interdisciplinar fecundo depende especialmente da própria concepção de conhecimento bem como de uma visão geral do modo pelo qual as disciplinas se articulam internamente e entre si.
No estudo sobre os fundamentos da Educação, pode-se tomar como referência resultados sobre o funcionamento do cérebro para se repensar a prática educacional
O cérebro não está disponível para absorver qualquer informação que lhe seja apresentada; ao contrário, ele se estrutura em termos de padrões de atividade eletroquímica que definem núcleos de interesse, para os quais é dirigido o foco da atenção. Para se motivar alguém a aprender, é preciso atingir esses núcleos de interesse, ainda que de forma desestabilizadora (apresentando desafios às crenças previamente existentes no aluno). Caso a informação apresentada passe ao largo dos temas para os quais o cérebro foi previamente mobilizado, as chances de aprendizagem se tornam bastante reduzidas(Rocha2000).
Além da criatividade, é importante que o professor relacione os novos conteúdos com aprendizados anteriores, pois faz com que a informação seja resgata e relembrada, facilitando o processo de memorização. Usar recursos com sons, imagens e humor permite que várias áreas do cérebro trabalhem simultaneamente no resgate de informações, estimulando a memória.

Conclusão
Muitos professores ensinam suas matérias sempre da mesma maneira. Aos alunos, resta, como último recurso, decorar os conteúdos ensinados, em vez de aprendê-los. Aprender significa trilhar caminhos próprios, pesquisar e experimentar coisas. Curiosidade, interesse, alegria e motivação são os pré-requisitos necessários ao aprendizado do que quer que seja. Não basta entender como se aprende, é preciso descobrir a melhor forma de ensinar.
Um professor, dentro da sala de aula, que tiver consciência da história de vida de seu aluno, e puder tratá-lo como um sujeito único, capaz de aprender, certamente terá mais possibilidade de auxiliá-lo a encontrar sua própria forma de assimilar o conhecimento.
Quanto mais bem organizada for a base de conhecimentos prévios, mais fácil será o aprendizado. Portanto, para melhorar as suas aulas, os educadores devem saber quais conhecimentos anteriores os alunos devem ter para que os objetivos didáticos sejam atingidos.
Os educadores deveriam saber sobre a influência existente entre os acontecimentos dos primeiros anos da infância e os comportamentos atuais de seus alunos, a luz da psicanálise. Devemos em primeiro lugar, entender a nossa infância, e aí sim, partir para desvendar os mistérios das mentes dos nossos alunos, só assim, compreenderemos realmente o nosso verdadeiro papel e a função de educador.
E os educadores que sabem de que forma e segundo quais condições o cérebro se modifica durante o aprendizado, sem dúvida poderão ensinar melhor.

Referências bibliográficas:
Ausubel, David P. Aquisição e retenção de conhecimentos: Uma perspectiva cognitva. Paralelo Editora Ltda. 2003.
Cardoso, Sílvia Helena. O que nos faz unicamente humanos ?. Int. http://www.cerebromente.org.br/n10/editorial-n10.htm. 2010. Acessado em 20/02/2011
Carvalho, Waldênia Leão. Fascículo de Filosofia da Educação. Curso de Licenciatura em  Biologia. UPE. EAD. 2008
Damásio, Antônio. O mistério da consciência: do corpo e das emoções ao conhecimento de si. Companhia das letras. São Paulo. 2000.
Kulevicz, Flávio. Contribuições da neurociência para a filosofia da mente. Jornal de Ciências Cognitivas: Sociedade Portuguesa de Ciências Cognitivas. Int. http://jcienciascognitivas.home.sapo.pt/06-09_bartoszeck.html.%202009. Acessado em 25.02.2011.
Lima, Ricardo Pinheiro. Contribuições da etologia comparada para uma nova percepção da comunicação humana. Int. http://www.pet.vet.br/puc/contri.pdf.%20Acessado%20em%2020./02/2011
Maturana, Humberto Romesín. Da biologia à psicologia. Editora Artes Médicas. Porto Alegra. 1998.
Piaget, Jean. O nascimento da inteligência na criança. Publicações Dom Quixote: Coleção Plural. Lisboa. 1971
Potier, Briitte. Arquivo cerebral. Revista Mente e Cérebro. Edição Especial: Memória. 2007.
Rocha, Armando Freitas. Neurobiologia da cognição. Revista  eletrônica Interface. http://www4.fct.unesp.br/docentes/fisio/augusto/Psicomotricidade/neurobiologia%20do%20aprendizado.pdf. 2000. Acessado em 25.02.2011
Schumacher, Ralph. Neurônios em ação. Revista Mente e Cérebro. Edição Especial: Como o cérebro aprende. 2007.
Vygotsky, Lev Semenovich. Pensamento e Linguagem. Edição eletrônica Ed Ridendo Castigat Mores. São Paulo. 2001.
___________. A formação social da mente. Livraria Martins Fontes Editora Ltda. São Paulo. 1991.
Wong, Kate. O despertar da mente moderna. Revista Scientific American. Edição Especial: Como nos tornamos humanos. 2005.

Bibliografia:
Chauí, Marilena. Convite à Filosofia. Ed. Ática. São Paulo. 2000
Chapouthier, Georges. Registros evolutivos. Revista Mente e Cérebro. Edição Especial: Memória.
Damásio, Antônio. O mistério da consciência: do corpo e das emoções ao conhecimento de si. Companhia das letras. São Paulo. 2000.
Deloache, Judy. Mente simbólica. Revista Mente e Cérebro. Edição Especial: Como o cérebro aprende. 2007.
Friedrich, Gerhard. Ciência do aprendizado. Revista Mente e Cérebro. Edição Especial: Como o cérebro aprende. 2007.
Fields, R. Douglas. Lembranças que ficam. Revista Mente e Cérebro. Julho 2006.
Fuster, Joaquín. Arquitetura da rede. Revista Mente e Cérebro. Edição Especial: Memória. 2007.
Laroche, Serge. Marcas da identidade. Revista Mente e Cérebro. Edição Especial: Memória.2007.
Leal, Gláucia. Aprender a ensinar. Revista Mente e Cérebro. Edição Especial: Como o cérebro aprende. 2007.
Lima, Ricardo Pinheiro. Contribuições da etologia comparada para uma nova percepção da comunicação humana. Int. http://www.pet.vet.br/puc/contri.pdf.%20Acessado%20em%2020./02/2011
Mirabella, Giovanni. O cérebro aprende. Revista Mente e cérebro. Edição Especial. Percepção. 2007.
Maturana, Humberto Romesín. Da biologia à psicologia. Editora Artes Médicas. Porto Alegra. 1998.
_____. Cognição, ciência e vida cotidiana. Editora UFMG. Belo Horizonte. 2001.
Muszkat, Mauro. Dinâmica do conhecimento. Revista Mente e Cérebro. Edição Especial: Como o cérebro aprende. 2007.
Gilson Tavares (psicanalista e educador)http://gilsontavares.blogspot.com/

Nenhum comentário:

Postar um comentário