Não é sobre política

 

Não tem como não falar a respeito dos últimos acontecimentos no Brasil.

O Brasil foi e ainda é notícia em todo o planeta, em razão das manifestações extremistas e terroristas do dia 8 de janeiro, quando os palácios que representam a democracia brasileira foram selvagemente atacados e depredados por aqueles que se diziam representantes da sociedade brasileira, e tudo em nome do patriotismo, em nome da família e em nome de Deus.

Manifestações pacíficas são entendidas como manifestações realizadas com o objetivo claro de chamar a atenção para algum tema ou com pautas claras para protestar contra algum tema ou alguma situação.

Qual o tema e qual a pauta desse movimento golpista travestido de manifestações populares?

Nunca foram manifestações pacíficas. Impedir a livre circulação de pessoas, bloquear vias públicas, não pode ser classificada de manifestação pacífica.

Faz tempo que não é sobre política. Política é sobre discussão de ideias. Política é sobre discussão de projetos. Política é sobre negociação. Política é sobre unir pensamentos divergentes para construir os interesses do bem comum.

Não é sobre política.

Faz tempo que é sobre fanatismo, principalmente fanatismo religioso. Faz tempo que é sobre manipulação de massas. Faz tempo que é golpismo.

Escolher como representante e governante um cidadão com 30 anos de vida pública, sem nenhuma contribuição para o país nesses trinta anos vividos a custa do estado, conhecido apenas pelo seu caráter desequilibrado e pelo seu envolvimento em transações duvidosas, não é compreensível, mas é aceitável.

Aceitável porque, afinal, vivemos em uma democracia. E, em uma democracia, todos têm o direito de fazer as suas escolhas e todos têm que ter as suas escolhas respeitadas. O limite da escolha de cada um só não pode ultrapassar o limite da escolha do outro.

Sendo assim, mesmo não sendo compreensível as razões das escolhas feitas, as escolhas devem ser respeitadas e aceitadas.

Porém, defender, apoiar, incentivar, justificar, enaltecer, participar ou contribuir para atos golpistas, defender, apoiar, incentivar, justificar, enaltecer, participar ou contribuir para atos extremistas, atos fascistas, atos terroristas, não pode ser nem compreensível, nem muito menos pode ser aceitável ou pode ser tolerável.

Não é sobre política. É sobre não saber perder. É sobre o uso da mentira como ferramenta de poder. É sobre o fanatismo. É sobre o ódio. É sobre a obscuridade. É sobre o atraso. É sobre a manipulação de massa. É sobre o fundamentalismo religioso. É sobre a criação de seitas. É sobre realidades paralelas. É sobre o radicalismo. É sobre o extremismo. É sobre a tentativa de autoritarismo. É sobre tentativa de golpe. É sobre o fascismo. É sobre o terrorismo.

E não estamos falando de nenhum país de algum recanto afastado do planeta, nem estamos falando do período medieval. Estamos falando do Brasil, em pleno século 21.

Como chegamos a esse cenário?

Não é fácil encontrar uma resposta.

Talvez sempre tenha sido assim. Essas pessoas sempre existiram. Apenas não tinha espaço de atuação e não tinha representatividade.

O Brasil tem como sair desse abismo para o qual foi arrastado?

Certamente tem sim. Mas não será nem fácil nem a curto prazo.

Exigirá muito trabalho, sabedoria e pulso firme, para construir as condições que permitam a construção de uma sociedade verdadeiramente civilizada.

Exigirá também a união de todas as instituições que fazem a sociedade civilizada e a união e apoio de todos os que fazem a sociedade civilizada.

Nessa caminhada, sem sombra de dúvida, o maior desafio será a construção de pessoas que tenham verdadeiramente o sentido de ética, a construção de pessoas que tenham verdadeiramente o sentido de cidadania, a construção de pessoas que tenham verdadeiramente o sentido de patriotismo, a construção de pessoas que tenham verdadeiramente o sentido de honestidade, a construção de pessoas que tenham verdadeiramente o sentido de civilidade.

A educação terá um papel fundamental nessa construção.

Educação como construção de pessoas no sentido mais completo possível.

Construção de pessoas pensantes. Construção de pessoas com senso crítico. Construção de pessoas com senso ético. Construção de pessoas com senso do que é ser cidadão. Construção de pessoas com senso do que é ser patriota. Construção de pessoas com senso do bem comum.

Não é sobre política.

É também sobre a saúde mental. É sobre a saúde espiritual. É sobre a filosofia. É sobre a sociologia. É sobre o direito. É sobre a ciência. É sobre a história.

Não é pela política.

É pelo caráter. É pela ética. É pela civilidade. É pela empatia. É sobre o sentido de cidadania. É sobre o sentido da responsabilidade pessoal. É sobre o sentido da responsabilidade social. É sobre o respeito. É sobre a dignidade. É sobre a decência.

Não é pela política.

É pela valorização da civilidade.

É pela valorização da ética.

É pela valorização da empatia.

É pela valorização da ciência.

É pela valorização da educação.

É pela valorização dos livros.

É pela valorização do meio ambiente.

É pela valorização da saúde.

É pela valorização da vida.

Gilson Tavares

Psicanalista Clínico e Organizacional

Administrador, Especialista em gestão de pessoas

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